quarta-feira, 24 de julho de 2013

Travessia

Era amor. Daqueles devastadores, indeléveis, difíceis de controlar. E ele nem queria que controlassem. Era amor, ele sabia; gostava de amar. Não importavam as risadinhas sorrateiras que terminavam em uma tosse seca e falsa dos colegas que o acompanhavam no horário de almoço. Ele amava. Amava atravessar a rua, toda cinza, estendida para ele como um tapete de concreto. Fiel. Tesa. Incólume. Pros diabos com a faixa. Preferia o risco, o medo, o alarde. Vez ou outra escutava uma buzina indignada. Sorria. Contente da rua, sua rua, aquela que nunca o maltratara. Exaltava o solo como a um deus antigo. Enumerava suas vantagens, listava seus feitos. Nova, velha, esburacada ou de seda, que importa? Era rua, consoante e vogais espremidas, apertadas entre as calçadas, inúteis e velhas. Gostava também das guias, acessos privados ao meio de transporte de seus pés. Amava atravessar a rua e sentia-se todo atravessado.
 Choveu um dia. Gotas enormes, grossas e mal educadas. Caiam sem aviso, sem com-licença nem me-desculpe. Os carros empacados eram os que mais sofriam. Faróis ligados às três da tarde, paravam nos semáforos e cruzamentos um grudado ao outro como se quisessem se ultrapassar sem molhar os pneus por muito mais tempo. Ele se atrasara para o almoço. Foi até a rua e ela o esperava acompanhada. Apinhada de portas, para-choques e calotas, o encarava como quem pede desculpas antecipadamente. Considerou se espremer entre os carros: o espaço não permitia. Pensou em cambalhotas, acrobacias e riu de si mesmo. Só lhe restava a faixa.
  Andou até ela com receio. As listras brancas desconfiavam dele. Começou a travessia sem encarar o semáforo ou o chão. O vento castigou o guarda-chuva e em dez segundos ele era só um couro cabeludo seco. As lentes do óculos estavam encharcadas e ele não tinha um para-brisa. Chegando ao canteiro central suspirou de frustração. Pra que dividir a avenida em dois? Por pura necessidade começou a atravessar a outra parte. Não sabia dominar a faixa. Cambaleou por ela sem perceber o movimento que recomeçava. Aquilo não eram carros, podia ser o vento. Buzina? Que nada, impressão. Só não se enganou no atropelamento. Quase alcançara a guia, mas não ouviu o aviso gritado. A chuva tirou seus sentidos e a travessia sua atenção. O rosto sangrava de encontro a rua. Braços abertos como num abraço infinito e verdadeiro. A faixa o espiava, um metro e meio atrás de onde seu corpo havia pousado. Falhara com ela antes, abandonava agora a rua. Melhor que tivesse amado a calçada.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Quando Minha Alma Reage a Musica.

Meus ouvidos, meu peito, meus olhos, meu corpo transborda. Eleva minha mente, e cada acorde incita uma nova noção do meu corpo. Cada deslize pelo instrumento é uma conexão nervosa, e desconhecida no meu físico. A melodia revitaliza, o ritmo incendeia, a harmonia eleva, e a junção disso tudo me faz crer que a musica pode ser a comunicação mais singela da alma, a maneira mais eficaz de podemos ser, tudo aquilo que escutamos.
Os acordes cochicham aos meu ouvidos, os segredos mais íntimos do meus inconsciente. As notas invadem a profundidade das minha emoções, e cogitam a possibilidade existir á propagação do som. A musica nos contam incógnitas, a musica fala em códigos e tons, e conseguem expressar de maneira tão rebuscada, que não conseguimos traduzir por meio consciente.
A musica é a epifania mais divinas das artes!
 

terça-feira, 4 de junho de 2013

Aonde Terminam os Caminhos

Sobre o lençol, ainda coberto de nós; cogito o pensamento de existir sem você. Sem sua áurea que ameniza meu caos, sem tuas dúvidas, sem tuas mãos e pesadelos, e assim, inconscientemente, perco o ritmo da minha respiração, e meu peito arde de tanto pudor, pela minha mente pregadora de peças. 
Suas sombras detalhadas pelas luzes do amanhecer colorem o nascer dessa segunda-feira e traz toda a paz que minha alma precisa. 
Sinto uma necessidade imensurável de passear minhas mãos sobre seus cachos bagunçados. Me torno livre ao teu lado. Me transformo em um abismo com o roçar de sua barba. Vivo imensidão envolta de todos os teus detalhes. 
Meus olhos transbordam, misturas melancólicas, gotas salgadas e você acorda com o molhar das lágrimas sobre teus laços. 
Teus dedos arrepiam meus cílios, e rapidamente seus lábios viajam a caminho do meu, sentir sua respiração alinhada com a minha, cogita um sorriso bobo surgindo sobre minha boca repleta de felicidade. 
Nossos odores se tornam a essência entre corpo e espírito. 
Entre beijos e toques, teu desejo me transporta para uma realidade metafísica, aonde me completo sobre teus sonhos rebuscados.
Alcancei teus sentidos inativos.
Liberta-me de sensações desconhecidas.
Meu amor transborda, e através desse gostoso romance, descobri; 
aonde termina nossos caminhos. 
O que me resta é naufragar para sempre sobre teus lábios.

sexta-feira, 8 de março de 2013

Silêncio

Era um daqueles dias que se parecem com dia nenhum. O céu não estava nublado, não chovia e tampouco ventava. Não importavam o sol e o azul. O mar ou o sal. Tanto fazia. Eles ficaram lá dentro por tanto tempo que o lá fora já não parecia nada. O hospital era o movimento das ruas entre algumas paredes, enjaulado, contido, sem escapatória. Sentado, bem ao lado do outro, esperava.
  Pelo que eu não sei bem, mas sei que esperava por algo. Talvez uma saída dali, uma fuga, uma porta, um buraco ou um daqueles sequestros relâmpagos que noticiam na TV. Entediados e ansiosos, era um momento em que o nada não era bem vindo. Alguma coisa acontecia. Em silêncio, no sufoco, mas acontecia.
  Silêncio. A única coisa de que ele se lembrava mais do que o café forte pronto em cinco minutos era o silêncio. Aterrador como a asfixia, sufocante como plástico envolta da cabeça. Nunca desapareceu. Sempre entre eles, vivendo mais do que eles próprios. O pai não estava ausente, mas a presença não era sentida. As poucas palavras trocadas pareciam evaporar antes que chegassem aos ouvidos do outro, mas pelo menos economizavam saliva. Nenhuma infância feliz, nenhum futuro sonhado. Era simples, medíocre, seco. Nem infeliz se dizia, porque não conhecia a felicidade. Cresceu sem expectativas porque o pai não lhe dera esperança alguma. Continuava ali, sentado ao lado dele naquele hospital lotado, esperando sabe-se lá o quê.
   O tempo passou invisível. Entraram naquele quarto, prescreveram um não-sei-quê, deram um diagnóstico assim, assim e os deixaram. Ele queria pedir, implorar, declamar que não os deixassem sós; o máximo que conseguiu foi abanar a cabeça. Sentou agora o mais longe possível dele, aquele moribundo que não o reconhecia mais. Já faziam meses. O câncer se alastrara mais rápido que o descaso recíproco. Sem outros parentes que se importassem, se encarregou de cuidar daquele resto de vida; não que ele se importasse, pelo contrário. A companhia do pai era quase nada. Sem palavras, cartas, bilhetes, telefonemas, telegramas, sinais de fumaça. Um hiato no tempo. Agora mais ainda, já que a respiração dele era praticamente nula.
  Daí um movimento. Um desses contidos, que quase ninguém perceberia. Ele percebeu. O doente se esforçava pra dizer alguma coisa que ele não queria escutar. Levantou, caminhou até lá e sentou-se enquanto ele lhe agarrava a mão. Por um momento os olhos alheios mostraram tudo o que nunca tinha visto. Não era o pai que faltava, era ele mesmo. Não era a palavra, era o toque. O que não tinha feito se esvaia agora em nada, coisa alguma, bem como a voz daquele que tentava lhe falar. 
   Pediu que ele ficasse calmo e tentou se acalmar. O coração batia tão rápido que ele poderia doar seus batimentos ao outro. Numa cópia deste, não pensava, respirava ou se movia direito. Veio o ápice. As respirações se suspenderam, as mãos se apertaram. Como numa despedida singular, não falavam nada, mas se gritavam. Ele nunca dissera ao pai nada significativo, mas aquilo não significava nada. O “te amo” saiu de assalto, como quem escapa do cativeiro. O pai sorria liberto. Ele chorava aterrado. A mão do primeiro pendeu mole, fria, sem tato algum. Ficaram eles ali, parados, lado a lado. Um vivendo a morte que acabara de ganhar e o outro sofrendo a vida que acabara de perder. Silêncio.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Meu Tom.


Às vezes, esses artistas
Parecem falar em outra língua
Discutem sobre os sons das teclas
Os sons da corda ou de um 'simples' sopro
Falam sobre o tom de Lá
Outros insistem no tom de Sol
Particularmente falando,
Fico bem com o Tom Jobim.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Essa Minha Admiração Pela Vida Coberta de Receio...


Eu me apego ao detalhe, pois somente ele aparenta ser fiel á leveza de nossa existência. Sou a totalidade de uma melancolia que eu mesmo desconheço, e tenho medo de ter certeza de minha condição, por medo de ser enganada pela perversidade de meus desejos. Não se pode ter convicção quando não se tem certeza de quem realmente é, e não sei explicar essa paixão que sinto por cogitar a ideia de ser livre, se nunca pertenci a nada e nem a ninguém.
Sou simplista, pois cativo-me ás coisas bonitas. Por um mínimo segundo qualquer me emociono com a beleza da expressão, seja da natureza, da artística ou do acaso, e me apego á essas frações de tempo tão fortemente, que encontro o prazer de viver. Contudo sou complexa, duvido de convicções já exemplificadas, e temo aquilo que me impõem de certeza. Enfim devo ser alguém paradoxal, coberto de receio, e espontaneidade, de gargalhadas e lagrimas, não sabendo que sentimento é difuso ao outro, apenas tentando aliviar essa indiferença do mundo com a arte.
Porem a arte surge a mim como uma faca de dois gumes, me frustro com o caos da totalidade, e redimo minha angustia por sentimentos, musicas, fotografias e principalmente livros, me acumulo em cada pixel, acordes, páginas, e detalhes, deixando todo meu sufoco se distrair com a genialidade da expressão humana. Contudo após o termino da admiração me frustro ainda mais, por saber que nunca vou atingir a perfeição de tais expressões artísticas. É um fluxo continuo que temo carregar a vida toda. Esse sentimento de admiração coberto de receio, que se desmonta e se reconstrói ao termino de cada apreciação artística em que me apaixono.
Nunca vou entender essa minha atração pelo a autodestruição. É como se eu tivesse tentando encontrar algo que jamais vou achar.Qualquer um dos meus sentidos é vago de razões para aceitar o conformismo das pessoas. É tanta pretensiosidade espalhada por ai, e eu tenho tanta repulsa por essas prepotências humanas, que já consigo lidar bem com a companhia da solidão.Já me conformei com o fato que preciso  lidar com esse meu sentimentalismo. Porem nunca terei certeza se o caos perdura fora, ou aqui dentro de mim.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Se você pudesse esquecer
 sua mente
 frente a mim,
 sei que
 o seu coração
 diria que sim.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

O Tempo, e a Mente Descontinua.

Sugestão de musica para escutar enquanto se lê: 


Todos nós possuímos a necessidade, de medir, traçar, e dar etapas ao um processo, seja ele um processo importante e comum como observar nosso crescimento físico e mental ,ou talvez um processo obsoleto como organizar objetos, e contar uma história rotineira. Lidamos como uma vontade inconsciente de demarcar pontos estratégicos para poder refletir e analisar oque estamos fazendo, essa necessidade pode ser caracterizada por uma falha compartilhada á todos, a mente descontinua.
Temos o nosso cérebro, e todos os nossos sentidos moldados para poder formar imagem e espaço de forma média ou seja, não conseguimos observar o macroscópio, como uma célula, a formação de uma molécula, o tamanho dos átomos, nem conseguimos a analisar, os componentes do sol, o tamanho de nossa galáxia. O ser-humano tem dificuldade de caracterizar ordens maiores ou menores além de sua  percepção e sentido, assim acontece com a velocidade da luz ou algo com uma movimentação muito lenta a ponto de não poder se perceber. Isso não tem lógica pela forma em que como nosso cérebro foi construído, então precisamos de analogias, explicações teóricas, metáforas, para assim compreender esse processo que não estão ajustados a nossa condição natural.
A nossa mente não consegue entender, de maneira fácil, esses extremos que existem,- e não é por que não conseguimos compreender, que algo deixa de existir - até por isso nós acabamos compartimentando tudo, apesar de serem necessárias, elas são naturalmente arbitrárias , o ser-humano precisa decidir certas coisas, para que a sociedade funcione, a maioridade penal é um exemplo desse ato-falho. Quantos estamos prestes á fazer 18 anos, e o horário está preste a mudar para 24:01 não nós sentimos especiais, contudo bem ou mal com 18 anos você passa a a ter direitos em que um dia antes você não tinha. Será que durante aquele minuto foi passou a ter uma maturidade necessária para exercer ordens da sociedade, da qual á uma semana antes você não seria capaz? Isso é obra da nossa mente descontinua, não tem como limitar nosso crescimento físico ou psicológico demarcando o tempo, isso varia de acordo com a experiencia de cada pessoa, sendo isso totalmente natural e totalmente arbitrária.
Algo pelo qual o ser-humano tenta entender formando processos cientificamente ou religiosamente é o tempo. O tempo absolutamente não tem natureza própria, quando nos parece longo, é londo, e quando nós parece curto é curto, mas ninguém sabe realmente a sua extensão, pelos pesares de medimos ele com relógios e calendários. Contudo esse tempo é muito diferente conforme as sensações que experimentamos; e que na realidade pode ser somente um movimento no espaço e medimos portanto, o tempo pelo espaço.
Percebemos o espaço com os nossos sentidos, por meio de vista e tato. Mas que órgão possuímos para medir o tempo? Como podemos medir uma coisa que na qual no fundo não sabemos de nada, nem sequer uma características?
Para que o tempo fosse mensurável, seria preciso que decorresse de modo uniforme; e quem lhe garante que é mesmo assim?  Para nossa consciência, não é. somente o supomos, para a boa ordem das coisas, e as medidas permitam se observar que não passam de convenções.
O tempo enquanto admiro Corelli e escrevo esses meus desvaneiso existências passam, e não volta mais, apenas espero e acredito que essa arbitrariedade natural do tempo, evoque um crescimento maior á minha alma.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Um bem maldito


O meu amor é de paz
De sossego devagar e sagaz
Volúpia de devaneio 
Moldura dos pais,
É sossego 
Desalinhado
Incomodado
Destemido 
Inconformado
Intolerante
É horrendo
Imaginário
É uma  otária
Que pensar em amor...
O meu amor é corrigido
Impecável
Erudito
Recreável
Um bem maldito
Indispensável pra mim!
O meu amor é a sobra do meu passado
Refletida no futuro
Desencadeada de fatos 
Alimentada por imundos
Destruída pelos puros
Revelada por tudo, que tenho.
Meu amor é de paz
É sossego vagaroso 
Esse timbre tão gostoso
Que me chama pra dançar

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

O jardim


O Vento que assoprava do leste, envolvia meus cabelos deixando a atmosfera mais relaxante o possível, e o contorno do horizonte sobre a paisagem era tão magnífica, que trazia arrepios, e sensações distintas após segundos de observação. Tudo parece tão calmo e sigiloso. Agora minha alma estava envolvida nesta felicidade particular.
Ao redor de tantos fatos e situações, sempre sentia que a sensação de solidão seria um fator recorrente ao ser como eu, que se apega aos detalhes. Uma áurea de duvidas sempre esteve em orbita sobre os meus pensamentos, a minha sensibilidade a respeito de todos os detalhes recorrentes o dia-a-dia, das coisas mínimas e simples sempre me geraram questionamento grandiosos, e a sensação de solidão seria constantes, pois não haveria nada com quem compartilhar essas anotações singelas da minha mente.
Tudo aquilo que penso e sinto, é reflexo dos detalhes sórdidos da vida. A angustia de não achar maneira de acabar com essas frustração e duvidas, é maior do que o próprio pensamento existencialista. Por que me sinto assim? Por que tantos questionamentos? Por que é tão grande e torturante esse sentimento de solidão?
Sentada aqui, encostada nesta grande arvore, trazendo odores tão rústicos ao meu olfato, causando alivio a minha mente, percebo, que a solidão não é um meio de castigo ao meu ser, mas sim uma prova, de que minha alma esta tão envolvida com a simplicidade, que não consegue se alinhar com o caos da rotina.
Lagrimas esparmando refrescancia ao meu rosto contra o vento. E os meus dentes insistiam de contornar minha boca, num sorriso tosco e alegre. A felicidade surgiu de maneira tão prazerosa que nem senti, que foi a paisagem que me envolvia, que me trouxe ela de volta. 

domingo, 7 de outubro de 2012

Burocracia


Nas ruas da grande cidade estou absorvida nos meus pensamentos. Como o cidadão virou refém do seu próprio aparato burocrático? Como um sistema que foi feito ara garantir a lisura e confiabilidade, pode guardar tantos detalhes? Por que tantas exigências para uma simples contratação pública? Por que existem pessoas que viraram especialistas em burocracia pública?
As respostas para todas estas perguntas é única. A burocracia cheia de poréns existe para garantir a idoneidade, já que o ser humano não consegue isto por si só. Somos uma espécie corrupta, que em algumas culturas ganhou ênfase tamanha que foi incorporado ao cotidiano.
Corrupção é o fungo que se forma e leva a podridão sistemas escolares, hospitalares, empresariais, políticos, o próprio cidadão, a família, que se viciam em tão prática inescrupulosa. O interessante passa a ser observar aquelas pessoas que tentam se manter corretas dignas, fazendo sua parte, pensando no coletiva, ser atropelada pelo um tsunami de anedotas, apontamentos e risinhos irônicos, como se ser digno fosse o maior dos absurdos.
A honra passou a ser passiva de notícia nacional, homens que simplesmente cumprem o seu dever são evidenciados desesperadamente como a luz no fim do túnel, para que a esperança sobreviva. Ao mesmo tempo existe uma inversão completa de valores, onde o traído passa a ser o culpado, enquanto o traidor o vangloriado, o humilde vira trocha nos sarcasmos dos corrompidos.
As más ações e pequenos delitos são exaltados em inúmeras histórias fabulosas, como sinônimo de exemplos de vida, no qual borbulham efervescentes na mente das crianças e da juventude louca para entrar para esta parcela majoritária.
Presa na garganta ecoa o grito silencioso de liberdade, que reflete nas paredes e vidraças dos arranha-céus, mexendo com todo o ambiente em sua volta e trazendo a razão da caminhada nos ladrilhos pretos e brancos do calçamento no passeio da larga avenida, céu de outono azul perfeito é penteado pela brisa fresca, que o leva as reflexões.
A prisão sem muros que o encarcera é a pior das punições, pois é visto como louco por cumprir seus deveres exemplarmente. A inveja dos colegas de trabalho o fere e a chagas vertem um vermelho escuro cheio de dor.
A tentação da luxuria o persegue pessoalmente, cheia de desejos indescritíveis, raivosa pela indiferença e sedenta por vê-lo no fundo do precipício esquartejado por pedras pontiagudas.
Os bobos da corte satirizam-no sem parar, para tirá-lo do sério e deste momento de instabilidade conseguir levá-lo ao hospício de um homicídio degradante. As pinturas escorrem as tintas escuras, que respingam no chão.
As passadas aumentam a velocidade, a multidão o sufoca se sente preterido entre um semáforo e outro, na travessia das ruas transversais. O ritmo da megalópole é intenso e intrínseco, acordes, que acordam no compasso de buzinadas e chigamentos, de freadas e arrancadas, do burburinho da multidão.
O letreiro atenta para a notícia de investigação no Senado, a cena se esvai no silêncio do pensamento, que o conforta por saber que se mante ausente daquela loucura, daquela balburdia, consegue se desvencilhar do manicômio poluído, sem perder a sensatez, sua arma mais poderosa é acreditar no ser humano, mesmo passando por idiota, trouxa, maluco, continua a cruzada pela liberdade, pregando o respeito, dando seu voto de confiança ao coletivo, a sociedade.
Talvez ele seja o louco, pois é ele que não se enquadrou no modelo, é ele que responde sem ser perguntado diretamente, é ele que acredita no mendigo, é ele que compreende as necessidades de cada um, que advoga aos acusados, que procura razão em todas as coisas. É ele que se vê algemado pela burocracia, encamisado pela injúria, acorrentado pela falta de consciência de coletividade, que afeta os milhões de vizinhos solitários da grande metrópole. 

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Paradoxo


   Esteve longe tempo suficiente para não sair de perto. E indo e vindo não saía do lugar, porque não gostava da constante inconstância. Queria tanto não desejar coisa alguma que obteve tudo o que não pediu. Além disso, andava só e mal acompanhado, quase sem poder dizer se tinha companheiros ou não. Passava as noites na claridade, para se recuperar da escuridão diurna. Se fechava os olhos, enxergava mais do que podia, se os abria, era cego. Dizia que todo ser era mentiroso e afirmava dizer a verdade, mas ele próprio era um ser. Ser ou não ser não lhe trazia questão alguma, só algumas dúvidas retóricas pras quais ele não tinha resposta. Gostava da agitada vida notívaga, tanto que a dormia por inteiro, e, quando acordava, não sabia se estava desperto. Caminhava tranquilamente, quase correndo, e sentindo sede ou fome parava para lembrar que já tinha se alimentado. Alimentava-se a si e a si mesmo somente, fornecendo seu alimento para qualquer um que o requeresse, retirando daí sua força alimentar. Bebericava sua água imunda, e ela o descia cristalina pelo corpo pequeno, que ocupava um espaço quase imenso. Sorria de tristeza, porque chorar não lhe trazia lágrimas, ou porque não soubesse, talvez. Não sabia nada, mas sua mente ignorante era a mais brilhante que se podia encontrar. Pedia para brincar de ser sério, e na maturidade alcançou o patamar de criança com peso nos ombros de adulto. Preenchia os vazios com nada, acudia quem estava em paz, renegava o que lhe obrigavam a aceitar. Desmanchava-se todo, se atirava do precipício, se baleava por mãos alheias e saia incólume, sem arranhões que fossem. Tinha uma fé inabalável, pois acreditava que nenhum ser superior pudesse jamais existir. Gostava das linhas retas, dessas que fazem curvas e se retorcem num só plano. Não se importava de ser tingido, proferido, desferido, referido, atraído ou induzido. Queria ser, só, sem existir em parte alguma. Tinha paciência indelével, e quando não o entendiam, enfurecia-se logo para acabar com aquilo de vez. Prezava ser escrito, mas não gostava muito de ser só palavra. Queria mais, queria qualquer coisa, queria nada. Não se contentava em ser figura, mas se sentia suficientemente bem assim. Preferia ser só linguagem, mas isso não o satisfazia. Era atrevido, retraído e distraído. Todos lhe indicavam o sentido, mas ele não tinha sentido algum e não sentia. Era tudo o que se possa imaginar, mas não passava daquilo, o paradoxo

quarta-feira, 25 de julho de 2012

Crianças.



Ah, querida, o que é que se pode fazer com as crianças? Elas nunca entendem. Não entendem porque eu estou aqui, deitado, enquanto elas precisam ficar sentadas numa sala prestando atenção em alguém. Elas não entendem porque meus olhos ficam fechados na maior parte do tempo, mesmo quando falo, enquanto elas precisam abrir bem os olhos e manter fechada a boca. Não entendem porque eu choro mesmo adulto, porque eu sinto dor sem dizer nada e porque minha face não tem mais cor. Elas não entendem querida, porque sofrem. Sofrem sem entender o sofrimento e choram sem ter conhecimento das lágrimas. Elas não entendem. A totalidade da inocência está nas crianças, e elas não entendem. Doi nas crianças, elas doem. Me pedem para não deixá-las, mas quando é que eu faria isso? O choro mais sofrido, querida, reverbera em mim só na angustia. E doi tanto porque também não entendo. Não entendo mais a pureza da infância nem o amor que eu sinto, exacerbado e dolorido que elas não conseguem entender, bem como a doença, que me consome. Eu morro querida, e as crianças não entendem. Quando chorarem por mim, ficarão confusas. Quando sentirem minha falta, não saberão porque. E quando pensarem em mim será estranho e incomodo. Vem aqui, meu bem, pega minha mão. Assim. O morrer elas não entendem. Mas quando eu não estiver mais aqui para explicar-lhes, querida, diga a elas que um dia entenderão.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Oportunidade perdida

Não era simplesmente, volúpia, nem mesmo algum certo desejo, o toque comum entre os ombros , parecia não ser um mero acaso do sentido tato trabalhando, era como uma conexão nervosa, aonde ambos seres conseguiam sentir, o desejo absorvendo todos os seus pensamentos programados, lhes deixando sem anedota para contar um ao outro.
Deitados lado-a-lado sobre o luar, perdidos sobre numa imensidão das estrelas, apenas conseguiam sentir o cheiro de sereno trazendo rusticidade à colina verde escura onde estavam esperando um do outro, algo impulso físico, aonde o psicológico já havia terminado.
O desejo é traiçoeiro, e dois seres-humanos confusos a respeito deste mesmo, traz a tona o pensamento de que eles foram atraídos por aquilo que lhes completaram.  E de alguma maneira,conseguiam sentir que  um simples e sutil toque pode ser tão intenso, quanto um beijo sem vontade.
Vontade? Impulso? Desejo? Solução?  A hesitação lhes tomou conta, e os braços dele envolveu o dela, fazendo sem querer o copo de vinho manchar o vestido da moça, a jovem se apoio nos cotovelos e lamentou, riram um para o outro mas, ainda contidos voltaram a fingir a observar estrelas,mesmos ambos os sentimentos estarem voltados um  para o outro, em uma estranha conexão que os faziam esquecer onde seus corpos estavam.
Erro? Acerto? Confusão? Pobres medíocres, que nunca saberiam, que se acorresse algum outro qualquer impulso poderiam sim, viver juntos para o resto da vida. Mas a vida é injusta de maneira eficaz, e isso é oque torna cada ser singular a partir de suas escolhas.O vinho estava ali, naquele centímetro exato, para fazer ocorre a sensação distinta entre os dois. O que tornaria, ou melhor, o que motivaria o destino cruzar a linhas deste dois jovens? Um Beijo, um gesto a mais? Pouco lhes importaria pois aquele fatídico momento sem impulso, sem anedotas sem prazerem físicos  ou sequer solução, perceberam que a felicidade é tão oposta a vida que estando nela, esqueceram de viver.


Inspiração:

Sonhos Eróticos de Uma Noite De Verão - Wood Allen

domingo, 29 de janeiro de 2012

Sobre Coisas Que Cabem em Um Mês

A preguiça física nos impede de mudar. Mas basta uma faísca entre dois neurônios para que nossa mente nos aponte para outra direção. Das duas uma: ou tu segues as novas coordenadas, que te podem levar por terrenos inóspitos e até mesmo campos minados, ou optas por permanecer no curso antigo, ignorando a intermitente buzina que te avisa: “estás no caminho errado”.Não digo “errado” no sentido mais amplo da palavra. Talvez sejam justamente as instruções antigas, as que estavam corretas. Mas acredito que, às vezes, precisamos deparar com um beco sem saída para descobrirmos que o caminho é pro outro lado. A vida já cansou de me provar repetidamente que a escolha certa é justamente a que me parece mais errada. Mas a gente precisa errar. Mas não errar por engano, por distração, displicência. Eu erro com força, e com vontade. Eu erro melhor, para errar menos.
E, sim, saio errante pela rua, torcendo pra chuva não me pegar, ou enxarcar cada centímetro da minha pele. Não é que eu esteja deixando a maré me levar, como se fosse plâncton. Eu erro por aí na tentativa de acertar. Depois de perceber que, sempre que acho que estou fazendo a coisa certa, descubro que estou machucando alguém, tenho apostado cada vez mais no que não me parece sensato. Improvável? Vamos. Impossível? Não existe. Impensável? Bora!
Sigo a maré das sinapses. Se a mente muda, eu mudo. Somente assim eu possa ser cem por cento sincero com aquele que mais estimo: eu.
“Tá, mas o que é que cabe em um mês?” – tu perguntas. Um ciclo lunar, um ciclo menstrual, uma copa do mundo, duas olimpíadas, um amor de verão, quatro amores de verão…
Um mês é o tempo que levei pra escrever de novo. O tempo que minha mente demorou pra mudar o curso da minha alma. Pra onde ela aponta agora? Pra bem longe.
Prometo ser mais ágil, escrever mais, e depois ler minha sensações esclarecidas perante as palavras.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Reflexo

O que seu espelho mostra pra você, quando você está de frente pra ele? O que é que você diz de você mesmo, do que você faz, do que você fez, do que você pensa? Seria possível tamanho distanciamento de si mesmo, a ponto de tecermos uma auto-avaliação que não seja contaminada pela nossa vaidade?
 O que tenho descoberto é que, a cada dia que passa, nós, que acreditamos em nós mesmos, vemos no reflexo algo cada vez mais parecido com o que sonhamos. Que fique claro que não me refiro, aqui, à imagem física, às aparências e às enganosas armadilhas que essas nos colocam pelo caminho. Eu falo de sonhos, e de objetivos, que nada mais são do que sonhos dos quais a gente realmente está correndo atrás. Eu falo de missões que a gente dá a si mesmo. Estamos cumprindo? Estamos, ao menos, tentando cumprí-las? Será que a gente sabe qual é a nossa missão aqui?
 O espelho pode nos dizer isso melhor do que ninguém. Estou cansada de gente que não consegue olhar nos olhos, pura e simplesmente por não saber que é atrás dos olhos que se encontra a nossa alma, nosso verdadeiro ser. Essas pessoas não conseguem nem olhar nos seus próprios olhos, pois sabem que vão ver o que não querem, mas sabem o que é. Sabem que estão em débito para consigo mesmos, e não se demonstram interessados em saldar essas dívidas.
Falando assim, posso parecer feita de certezas, quando, na verdade, não passo de um alguém cheio de dúvidas. Mas são essas dúvidas que me guiam atrás de respostas. E o que eu digo aqui, eu aprendi durante essas buscas infindáveis. Quantas vezes acabei encontrando uma pergunta ainda mais inquietante, quando tudo o que eu queria era uma resposta curta e certeira. Não há. Nunca houve. Algumas delas o espelho me conta, quanto a outras, me dá somente dicas confusas. E tem também aquelas que são tão complicadas que eu nem sei por onde começar a perguntar. E é por não ter respostas para tudo que eu acabo escrevendo pra mim mesmo essas perguntas. Um dia eu vou saber responder. E vou escrever na minha alma, para que todos leiam por detrás dos meus olhos. 

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Gargalhada.

Pela situação que estava, era normal o nervosíssimo.
 Ela fechou a porta malas, olhou para os lados e seguiu a estrada por vários minutos que abrigavam aquela madrugada. Ela não conseguiu pensar em nada, sua mente estava vazia; pareceria uma marionete se não estivesse sem destino algum.
Nunca havia encontrado prazer tão retumbante quanto o medo, de uma flagra acabar com suas conseqüências.  Era como se tivesse em um estado súbito de adrenalina, uma escancarada vitima de uma falácia de espantalho.  
Depois de alguns instantes, algo começou a se debater no porta-malas e gemidos abafados era escutado nitidamente. Ignorar, demonstrava ser incorreto, a madrugada já abrangeu  de todo o silêncio. Sem saber o que fazer ela acelerou; e pelo prazer do mero acaso, ignorou a estrada, fechou os olhos, e encontrou-se no ápice inútil de vida e morte, não queria abrir os olhos e nem tirava qualquer centímetro do acelerador, e após alguns segundos calmaria se tornara escassa. Depois de um grande impulso, ela sentiu a colisão, que tirou o carro para fora da pista, e então abriu os olhos e avistou o que acontecera. Seu carro amassado, ela machucada, e nenhum vestígio de que seu ex-marido estava vivo.
Ela somente gargalhava.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A mercê da vida

Questiono-me muito o papel do ser – humano perante a sociedade, e começo a ter uma fria visão de que a maioria das pessoas é descartável. Basicamente é como  se a maioria, fosse apenas viva para alimentar o ego de poucos, ou até mesmo de objetos, fazendo de sua vida uma falsa felicidade. 
Se analisarmos de longe a sociedade, o existencialismo é algo totalmente efêmero. Somos apenas pessoas, que vivem conforme um padrão, falando mal do amor, mas mesmo assim, fazendo de cada situação, uma ação pra fazerem as pessoas nos amarem mais, e fazendo o egoísmo uma única maneira de felicidade, sem ao menos percebemos o quanto banal somos.
 Junto com a ignorância, vem a falta de essência e a realidade é que as pessoas não querem escutar e nem aceitar que suas vidas podem ser mais insignificante, do que a de um inseto.Nascemos, vivemos e morremos como qualquer outro ser-vivo, como Goethe diz “A mercê dos dias, do tempo”. Nós, a sociedade, destruímos pela imposição das ilusões que criamos sobre anseios divinos; produzimos a fantasia da perfeição e, por ela, chacinamos e sucumbimos.
Se dedicássemos nossas vidas a arte, conhecimento e principalmente a simplicidade, esquecendo o padrão, a rotina e o mecanismo, talvez a estagnação do tempo morresse e nossas almas pudessem ser realmente livres e felizes. É preciso se afastar, para adquirir perspectiva. E quando você pisa numa grama fresquinha, e consegue ouvir os passarinhos conversando, e consegue ver o horizonte, você descobre que era apenas isto que estava faltando. Percebemos o mundo através dos sentidos, que nos causam sensações internas. A aparência das coisas não é insignificante. Nosso estado emocional e mental é afetado por tudo isso e são eles que guiam nossas ações no mundo.
Talvez soe clichê, mas a  criatividade deveria estar presente em todos os momentos de nossas vidas. É a natureza da vida e de tudo que é vivo, é o que nos faz sentir vivos. Cantar no chuveiro, dançar sozinho, tirar fotos, prestar atenção nas coisas à sua volta, olhar pela janela, escrever uma carta, olhar nos olhos, fazer um bolo ,escrever seu sonho depois de acordar, abraçar, estar aberto a idéias,  reciclar, renovar algo velho, mudar o caminho, brincar com o cachorro, sorrir para alguém na rua, compor uma música, fazer projetos, aprender algo novo... aproveitar intensamente a simplicidade.Em suma nossa vida, aos olhares estranhos talvez ainda seja inútil, mas á nós, será a maior prova a  de enriquecimento da alma.



sexta-feira, 18 de novembro de 2011

A Frustração de uma Insonia

Eu programo o meu futuro criando falsas expectativas; Sempre tento achar uma maneira de acabar com esses pensamentos, mas acabo criando uma coleção de tediosas horas. Minha competência é inexistente, tao quanto a salvação para o egoismo da sociedade; a esperança de um dia melhor é impregnante em minha mente como um parasita, mas os acasos dos dias de hoje, me fazem pensar que isso tudo é apenas uma mera ilusão.
Me canso fácil de tudo e de todos, procurando defeitos inúteis pra constatar que sempre estou com a razão. Eu tenho tanto medo do futuro, do que está pra acontecer, que começo a programar armadilhas, acreditando que nada vaia acontecer e que o presente é o único infinito existente.
Observo a vida dos outros, florescendo de privilégios, e documento minhas frustrações e anseios na palavra. Um caderno e um objeto que risque os meus temores é o necessário para acalmar minhas desilusões.  

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Talvez

Talvez seja, a persuasão dos seus atos sobres os meus.
Talvez a felicidade, seja a soma de minhas vontades.
Talvez, eu seja feita de cacos, que você cola, pra poder quebrar de novo.
Talvez o capitalismo gere falsas ambições.
Talvez o tempo é o pai do acaso.
Talvez, a beleza de tudo, esteja na certeza do nada.
Talvez borboletas sejam flores, que o vento tirou pra dançar.

Talvez, eu seja apenas um talvez, tentando ser certeza.
Tentando ser para sempre, e parando sempre, pela metade.