Era um daqueles dias que se
parecem com dia nenhum. O céu não estava nublado, não chovia e tampouco
ventava. Não importavam o sol e o azul. O mar ou o sal. Tanto fazia. Eles
ficaram lá dentro por tanto tempo que o lá fora já não parecia nada. O hospital
era o movimento das ruas entre algumas paredes, enjaulado, contido, sem
escapatória. Sentado, bem ao lado do outro, esperava.
Pelo que eu não sei bem, mas sei que esperava por algo. Talvez uma saída
dali, uma fuga, uma porta, um buraco ou um daqueles sequestros relâmpagos que
noticiam na TV. Entediados e ansiosos, era um momento em que o nada não era bem
vindo. Alguma coisa acontecia. Em silêncio, no sufoco, mas acontecia.
Silêncio. A única coisa de que ele se lembrava mais do que o café forte
pronto em cinco minutos era o silêncio. Aterrador como a asfixia, sufocante
como plástico envolta da cabeça. Nunca desapareceu. Sempre entre eles, vivendo
mais do que eles próprios. O pai não estava ausente, mas a presença não era
sentida. As poucas palavras trocadas pareciam evaporar antes que chegassem aos
ouvidos do outro, mas pelo menos economizavam saliva. Nenhuma infância feliz,
nenhum futuro sonhado. Era simples, medíocre, seco. Nem infeliz se dizia,
porque não conhecia a felicidade. Cresceu sem expectativas porque o pai não lhe
dera esperança alguma. Continuava ali, sentado ao lado dele naquele hospital
lotado, esperando sabe-se lá o quê.
O tempo passou invisível. Entraram naquele quarto, prescreveram um
não-sei-quê, deram um diagnóstico assim, assim e os deixaram. Ele queria pedir,
implorar, declamar que não os deixassem sós; o máximo que conseguiu foi abanar
a cabeça. Sentou agora o mais longe possível dele, aquele moribundo que não o
reconhecia mais. Já faziam meses. O câncer se alastrara mais rápido que o
descaso recíproco. Sem outros parentes que se importassem, se encarregou de
cuidar daquele resto de vida; não que ele se importasse, pelo contrário. A
companhia do pai era quase nada. Sem palavras, cartas, bilhetes, telefonemas,
telegramas, sinais de fumaça. Um hiato no tempo. Agora mais ainda, já que a
respiração dele era praticamente nula.
Daí um movimento. Um desses contidos, que quase ninguém perceberia. Ele
percebeu. O doente se esforçava pra dizer alguma coisa que ele não queria
escutar. Levantou, caminhou até lá e sentou-se enquanto ele lhe agarrava a mão.
Por um momento os olhos alheios mostraram tudo o que nunca tinha visto. Não era
o pai que faltava, era ele mesmo. Não era a palavra, era o toque. O que não
tinha feito se esvaia agora em nada, coisa alguma, bem como a voz daquele que
tentava lhe falar.
Pediu que ele ficasse calmo e tentou se acalmar. O coração batia tão
rápido que ele poderia doar seus batimentos ao outro. Numa cópia deste, não
pensava, respirava ou se movia direito. Veio o ápice. As respirações se
suspenderam, as mãos se apertaram. Como numa despedida singular, não falavam
nada, mas se gritavam. Ele nunca dissera ao pai nada significativo, mas aquilo
não significava nada. O “te amo” saiu de assalto, como quem escapa do cativeiro.
O pai sorria liberto. Ele chorava aterrado. A mão do primeiro pendeu mole,
fria, sem tato algum. Ficaram eles ali, parados, lado a lado. Um vivendo a
morte que acabara de ganhar e o outro sofrendo a vida que acabara de perder.
Silêncio.
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