Nas
ruas da grande cidade estou absorvida nos meus pensamentos. Como o cidadão
virou refém do seu próprio aparato burocrático? Como um sistema que foi feito
ara garantir a lisura e confiabilidade, pode guardar tantos detalhes? Por que
tantas exigências para uma simples contratação pública? Por que existem pessoas
que viraram especialistas em burocracia pública?
As
respostas para todas estas perguntas é única. A burocracia cheia de poréns
existe para garantir a idoneidade, já que o ser humano não consegue isto por si
só. Somos uma espécie corrupta, que em algumas culturas ganhou ênfase tamanha
que foi incorporado ao cotidiano.
Corrupção
é o fungo que se forma e leva a podridão sistemas escolares, hospitalares,
empresariais, políticos, o próprio cidadão, a família, que se viciam em tão
prática inescrupulosa. O interessante passa a ser observar aquelas pessoas que tentam
se manter corretas dignas, fazendo sua parte, pensando no coletiva, ser
atropelada pelo um tsunami de anedotas, apontamentos e risinhos irônicos, como
se ser digno fosse o maior dos absurdos.
A
honra passou a ser passiva de notícia nacional, homens que simplesmente cumprem
o seu dever são evidenciados desesperadamente como a luz no fim do túnel, para
que a esperança sobreviva. Ao mesmo tempo existe uma inversão completa de
valores, onde o traído passa a ser o culpado, enquanto o traidor o vangloriado,
o humilde vira trocha nos sarcasmos dos corrompidos.
As
más ações e pequenos delitos são exaltados em inúmeras histórias fabulosas,
como sinônimo de exemplos de vida, no qual borbulham efervescentes na mente das
crianças e da juventude louca para entrar para esta parcela majoritária.
Presa
na garganta ecoa o grito silencioso de liberdade, que reflete nas paredes e
vidraças dos arranha-céus, mexendo com todo o ambiente em sua volta e trazendo
a razão da caminhada nos ladrilhos pretos e brancos do calçamento no passeio da
larga avenida, céu de outono azul perfeito é penteado pela brisa fresca, que o
leva as reflexões.
A
prisão sem muros que o encarcera é a pior das punições, pois é visto como louco
por cumprir seus deveres exemplarmente. A inveja dos colegas de trabalho o fere
e a chagas vertem um vermelho escuro cheio de dor.
A
tentação da luxuria o persegue pessoalmente, cheia de desejos indescritíveis,
raivosa pela indiferença e sedenta por vê-lo no fundo do precipício
esquartejado por pedras pontiagudas.
Os
bobos da corte satirizam-no sem parar, para tirá-lo do sério e deste momento de
instabilidade conseguir levá-lo ao hospício de um homicídio degradante. As
pinturas escorrem as tintas escuras, que respingam no chão.
As
passadas aumentam a velocidade, a multidão o sufoca se sente preterido entre um
semáforo e outro, na travessia das ruas transversais. O ritmo da megalópole é
intenso e intrínseco, acordes, que acordam no compasso de buzinadas e
chigamentos, de freadas e arrancadas, do burburinho da multidão.
O
letreiro atenta para a notícia de investigação no Senado, a cena se esvai no
silêncio do pensamento, que o conforta por saber que se mante ausente daquela
loucura, daquela balburdia, consegue se desvencilhar do manicômio poluído, sem
perder a sensatez, sua arma mais poderosa é acreditar no ser humano, mesmo
passando por idiota, trouxa, maluco, continua a cruzada pela liberdade,
pregando o respeito, dando seu voto de confiança ao coletivo, a sociedade.
Talvez
ele seja o louco, pois é ele que não se enquadrou no modelo, é ele que responde
sem ser perguntado diretamente, é ele que acredita no mendigo, é ele que
compreende as necessidades de cada um, que advoga aos acusados, que procura
razão em todas as coisas. É ele que se vê algemado pela burocracia, encamisado
pela injúria, acorrentado pela falta de consciência de coletividade, que afeta
os milhões de vizinhos solitários da grande metrópole.
Nenhum comentário:
Postar um comentário