quarta-feira, 25 de julho de 2012

Crianças.



Ah, querida, o que é que se pode fazer com as crianças? Elas nunca entendem. Não entendem porque eu estou aqui, deitado, enquanto elas precisam ficar sentadas numa sala prestando atenção em alguém. Elas não entendem porque meus olhos ficam fechados na maior parte do tempo, mesmo quando falo, enquanto elas precisam abrir bem os olhos e manter fechada a boca. Não entendem porque eu choro mesmo adulto, porque eu sinto dor sem dizer nada e porque minha face não tem mais cor. Elas não entendem querida, porque sofrem. Sofrem sem entender o sofrimento e choram sem ter conhecimento das lágrimas. Elas não entendem. A totalidade da inocência está nas crianças, e elas não entendem. Doi nas crianças, elas doem. Me pedem para não deixá-las, mas quando é que eu faria isso? O choro mais sofrido, querida, reverbera em mim só na angustia. E doi tanto porque também não entendo. Não entendo mais a pureza da infância nem o amor que eu sinto, exacerbado e dolorido que elas não conseguem entender, bem como a doença, que me consome. Eu morro querida, e as crianças não entendem. Quando chorarem por mim, ficarão confusas. Quando sentirem minha falta, não saberão porque. E quando pensarem em mim será estranho e incomodo. Vem aqui, meu bem, pega minha mão. Assim. O morrer elas não entendem. Mas quando eu não estiver mais aqui para explicar-lhes, querida, diga a elas que um dia entenderão.

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