quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Paradoxo


   Esteve longe tempo suficiente para não sair de perto. E indo e vindo não saía do lugar, porque não gostava da constante inconstância. Queria tanto não desejar coisa alguma que obteve tudo o que não pediu. Além disso, andava só e mal acompanhado, quase sem poder dizer se tinha companheiros ou não. Passava as noites na claridade, para se recuperar da escuridão diurna. Se fechava os olhos, enxergava mais do que podia, se os abria, era cego. Dizia que todo ser era mentiroso e afirmava dizer a verdade, mas ele próprio era um ser. Ser ou não ser não lhe trazia questão alguma, só algumas dúvidas retóricas pras quais ele não tinha resposta. Gostava da agitada vida notívaga, tanto que a dormia por inteiro, e, quando acordava, não sabia se estava desperto. Caminhava tranquilamente, quase correndo, e sentindo sede ou fome parava para lembrar que já tinha se alimentado. Alimentava-se a si e a si mesmo somente, fornecendo seu alimento para qualquer um que o requeresse, retirando daí sua força alimentar. Bebericava sua água imunda, e ela o descia cristalina pelo corpo pequeno, que ocupava um espaço quase imenso. Sorria de tristeza, porque chorar não lhe trazia lágrimas, ou porque não soubesse, talvez. Não sabia nada, mas sua mente ignorante era a mais brilhante que se podia encontrar. Pedia para brincar de ser sério, e na maturidade alcançou o patamar de criança com peso nos ombros de adulto. Preenchia os vazios com nada, acudia quem estava em paz, renegava o que lhe obrigavam a aceitar. Desmanchava-se todo, se atirava do precipício, se baleava por mãos alheias e saia incólume, sem arranhões que fossem. Tinha uma fé inabalável, pois acreditava que nenhum ser superior pudesse jamais existir. Gostava das linhas retas, dessas que fazem curvas e se retorcem num só plano. Não se importava de ser tingido, proferido, desferido, referido, atraído ou induzido. Queria ser, só, sem existir em parte alguma. Tinha paciência indelével, e quando não o entendiam, enfurecia-se logo para acabar com aquilo de vez. Prezava ser escrito, mas não gostava muito de ser só palavra. Queria mais, queria qualquer coisa, queria nada. Não se contentava em ser figura, mas se sentia suficientemente bem assim. Preferia ser só linguagem, mas isso não o satisfazia. Era atrevido, retraído e distraído. Todos lhe indicavam o sentido, mas ele não tinha sentido algum e não sentia. Era tudo o que se possa imaginar, mas não passava daquilo, o paradoxo

Nenhum comentário:

Postar um comentário