quarta-feira, 24 de julho de 2013

Travessia

Era amor. Daqueles devastadores, indeléveis, difíceis de controlar. E ele nem queria que controlassem. Era amor, ele sabia; gostava de amar. Não importavam as risadinhas sorrateiras que terminavam em uma tosse seca e falsa dos colegas que o acompanhavam no horário de almoço. Ele amava. Amava atravessar a rua, toda cinza, estendida para ele como um tapete de concreto. Fiel. Tesa. Incólume. Pros diabos com a faixa. Preferia o risco, o medo, o alarde. Vez ou outra escutava uma buzina indignada. Sorria. Contente da rua, sua rua, aquela que nunca o maltratara. Exaltava o solo como a um deus antigo. Enumerava suas vantagens, listava seus feitos. Nova, velha, esburacada ou de seda, que importa? Era rua, consoante e vogais espremidas, apertadas entre as calçadas, inúteis e velhas. Gostava também das guias, acessos privados ao meio de transporte de seus pés. Amava atravessar a rua e sentia-se todo atravessado.
 Choveu um dia. Gotas enormes, grossas e mal educadas. Caiam sem aviso, sem com-licença nem me-desculpe. Os carros empacados eram os que mais sofriam. Faróis ligados às três da tarde, paravam nos semáforos e cruzamentos um grudado ao outro como se quisessem se ultrapassar sem molhar os pneus por muito mais tempo. Ele se atrasara para o almoço. Foi até a rua e ela o esperava acompanhada. Apinhada de portas, para-choques e calotas, o encarava como quem pede desculpas antecipadamente. Considerou se espremer entre os carros: o espaço não permitia. Pensou em cambalhotas, acrobacias e riu de si mesmo. Só lhe restava a faixa.
  Andou até ela com receio. As listras brancas desconfiavam dele. Começou a travessia sem encarar o semáforo ou o chão. O vento castigou o guarda-chuva e em dez segundos ele era só um couro cabeludo seco. As lentes do óculos estavam encharcadas e ele não tinha um para-brisa. Chegando ao canteiro central suspirou de frustração. Pra que dividir a avenida em dois? Por pura necessidade começou a atravessar a outra parte. Não sabia dominar a faixa. Cambaleou por ela sem perceber o movimento que recomeçava. Aquilo não eram carros, podia ser o vento. Buzina? Que nada, impressão. Só não se enganou no atropelamento. Quase alcançara a guia, mas não ouviu o aviso gritado. A chuva tirou seus sentidos e a travessia sua atenção. O rosto sangrava de encontro a rua. Braços abertos como num abraço infinito e verdadeiro. A faixa o espiava, um metro e meio atrás de onde seu corpo havia pousado. Falhara com ela antes, abandonava agora a rua. Melhor que tivesse amado a calçada.

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